domingo, 25 de junho de 2017

A Metamorfose


Da série "só tem louco me ligando", numa manhã de sábado qualquer, eu estava trabalhando em uma ideia empolgante, quando o celular tocou. Nunca olho no identificador, acho mais interessante, em tempos de WhatsApp, saber quem está falando depois do primeiro "alô".


- Senhor Lucas? - disse a voz de uma mulher quase que gritada na minha orelha.
- É o telefone dele! - (eu sei que às vezes eu também não facilito).
- Estou ligando para falar do texto que o senhor encaminhou para a publicação XYZ.
- Legal! Você leu?
- Eu não, mas eu gostaria de lhe pedir algumas mudanças no terceiro e no quinto parágrafo.
- Mas você não leu?
- Não li.


Silêncio.



- E qual é a alteração que eu tenho que fazer?

- O terceiro e o quinto parágrafo.
- Claro. Sim! Mas qual é a alteração? É uma palavra específica, uma frase, o que incomodou no texto?
- Então senhor Lucas, a alteração tem que ser feita nessas partes que eu estou lhe passando. Preciso para hoje à tarde, ok?
- Mas moça, eu preciso que você me diga o que alterar.
- Não é evidente? Os trechos não agradaram.
- Mas você leu?
- Não. Eu não leio os textos da publicação.
- Ok, então é só eu alterar e reencaminhar o texto?
- Isso. Tem que ser pra hoje, até o final da tarde.


O relógio digital sob minha mesa de trabalho marcava 10h05. Fechei a ideia empolgante e me coloquei a trabalhar nos parágrafo que mereciam o ajuste. 



"Mas ela nem leu, cacete!".

Revi cada palavra. Mudei o conceito dos assuntos abordados em cada uma das passagens. Cortei advérbios, encurtei frases, simplifiquei a linguagem e mudei mais uma coisinha aqui e outra ali. Perto do meio dia, mandei o texto com as alterações pedidas para o e-mail indicado.

Por volta das três, o telefone toca novamente.

- Senhor Lucas?

- É o telefone dele!
- Aqui é o Antunes. Estou ligando para falar do seu texto enviado para a publicação XYZ.
- A sim, recebeu as alterações que eu mandei?
- Sim, recebemos. Mas eu estou te ligando para falar sobre o parágrafo inicial. Precisa alterar.
- Mas eu já alterei o terceiro e o quinto parágrafo como me pediram.
- Ok senhor, mas eu estou falando do primeiro. Precisa mudar.
- Você leu o texto?
- Li o primeiro parágrafo até agora. É ele que eu preciso que o senhor altere.
- E qual e a mudança que você quer?
- Não sei. Eu não gostei. Mude para algo que seja mais agradável, por favor.
- Mas isso é muito relativo. Me dê uma indicação mais precisa do que deve ser alterado.
- O primeiro paragrafo tem que mudar. Eu preciso dele alterado até o final da tarde de hoje, ok?
- Tá bom, mas só que... Alô? Alô?


Perto das quatro horas, começo a reescrever. Mudo a introdução inteira do texto e mando para o e-mail indicado. Às cinco horas, eu atendo o telefone pela terceira vez.


- Senhor Lucas?
- É o telefone dele!
- Aqui é o Flávio da publicação XYZ. Estou entrando em contato para falar do seu texto. O parágrafo quatro e a conclusão não estão de acordo, esteticamente e em estilo de linguagem, com  restante do texto. O senhor poderia verificar?
- Amigo, eu alterei o texto duas vezes já a pedido de vocês. Você chegou a ler?
- Ah não, eu não li senhor, eu só sigo ordens.
- Ok, mas por que vocês não passam todas as alterações de uma só vez?
- Senhor, eu estou lhe passando agora. Precisa ser refeito os dois parágrafos que citei.
- A estética e o estilo?
- Sim, exatamente! E eu preciso do texto ajustado até às seis horas?
- Meu Deus do Céu, cara! Tem menos de uma hora, me dá mais prazo!


Suspiro alto do outro lado da linha.

- Posso aguardar até as sete. Ajuda?

- Acho que sim. Vou trabalhar nas alterações imediatamente.


Faltando dez minutos para o final do prazo, anexo o texto ao e-mail e clico em enviar.



"Acho que agora fechou".



Exatamente às sete horas, o telefone toca.



- Senhor Lucas?

- Fala!
- Aqui é o Antônio, da publicação XYZ. Estou ligando para falar do seu texto. Infelizmente ele não se adequa a nossa proposta e por conta do prazo já avançado, teremos de descartá-lo.
- Como assim, você ficou maluco? Eu fiz todas as adequações que vocês pediram.
- Sim, mas o tema do seu material está errado. Você escreveu um texto sobre o a cultura contemporânea e suas implicações sociais, e nós queríamos um texto sobre as fases da Lua e sua influência sobre a civilização egípcia.

- Mas como assim? O pedido para a publicação, que vocês criaram e me enviaram especificava que o tema era a cultura contemporânea e suas implicações sociais. Vocês não podem mudar assim, sem avisar.
- Senhor, nós avisamos três vezes que precisava mudar. Você não se adequou, não cumpriu o prazo estabelecido. Desculpe, mas não tem do que reclamar!
- Mas vocês nunca disseram... Nunca avisara... Vocês nem sabiam o que deveria ser mudado!
- Senhor, desculpe, mas não há nada a ser feito. Da próxima vez tente cumprir o prazo estabelecido e com o tema adequado, ou então passe o texto para outro escritor fazê-lo. Talvez saia mais dentro do que precisamos.

A linha muda no final do dia, eu juro, gargalhava na minha cara.


*o nome da publicação, obviamente, foi alterado para evitar qualquer problema.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Desistir é Para os Fortes





Pode ser que uma terceira guerra mundial seja deflagrada por se falar em desistência num mundo cada vez mais competitivo e cheio de certezas vendidas a granel.
Desistir do que? Desistir para que? Desistir porque?
No mundo do imediatismo temos 5 passos para o sucesso, temos formulas para emagrecer. Toda loja feminina acredita ou impõe que toda mulher vista 38, todo homem sabe do compromisso inadiável em transformar sua barriga num tanquinho e toda criança aprende a ser capitalista nas gondolas de supermercados, e cada comercial feito especialmente para elas é uma espécie de curso de aperfeiçoamento em como constranger pais e mães a lhe darem presentes de atenção, carinhos tecnológicos e afagos  de brinquedos que acompanham um lanche. (Ou talvez seja o lanche que acompanhe o brinquedo).
Caso você ouse desistir de andar com a manada será inevitavelmente um fracasso, será aquele que não deu conta e que não aguentou o tranco da vida.
Aquele seu relacionamento abusivo no qual sempre existe alguém louco por amor, desde que viver esse amor seja suprir suas próprias necessidades pode durar anos de reclamações, frustrações e decepções.
Aqueles 15 anos no trabalho que você odeia, aqueles 4 anos de uma faculdade que você jogou fora, pois jamais se vê trabalhando naquilo ou até mesmo o bom e velho habito de acreditar que coisas que se repetem e patinam como carro com pneus carecas numa poça de lama possuem algum significado místico.
Na vida o que patina e se repete é algo que precisa de mudança de atitude, de posicionamento ou desistência.
Desista dos debates acalorados, eles não te movimentam, não agregam e nunca criarão frutos positivos.
Desista de relacionamentos abusivos ou que desejam moldar a sua sagrada forma a imagem e semelhança de outrem.
Desista de qualquer coisa que não o faça minimamente feliz.
Desista de brigar com a vida, ela sempre ganha de lavada.
Desista de tentar convencer, por vezes no meio de uma madrugada insone quando nossos bichos saem de debaixo da cama não convencemos nem a nós mesmos.
Desista de tentar ser gente boa, isso não dá pra disfarçar por muito tempo.
Desista de qualquer sonho no qual o roteiro não tenha sua coparticipação.
Desista de entender e concertar sua família. A origem etimológica dessa palavra gera conflito até hoje, alguns defendem seu surgimento da palavra em latim – "Fames" (Fome), já outras da palavra "Famulus" (Servente), que seriam na verdade um conjunto de escravos que um senhor possuía sob seu teto. Quando o assunto é família até a história fica torta.
É claro que tudo isso pode ficar lindo num texto, mas extremamente difícil na vida prática, mas acredite a parte prática da vida é construída por nós, a vida de prática tem muito pouco. A vida é cheia de mistérios a serem desvendados, como por exemplo porque na gaveta de meias sempre falta um par? Porque pararam de vender aquele pirulito de doce de leite do zorro? Porque você pode dar uma palestra sobre tudo, e ao lado de uma pessoa que você acha interessante seu parco português engasga? Porque o homem é o único animal que cora?
Os porquês desses mistérios encheriam dezenas de pagina.
As certezas estão cada vez mais cambiáveis, os planos infalíveis estão sempre insistindo em não serem afinal tão infalíveis assim.
Desista meu caro, desista minha cara. Recomece, lave tudo com bom humor ou lágrimas, sofra o tempo que for necessário, purgue de dentro para fora e aperfeiçoe o voo.
Mas lembre-se de poucas, mas sinceras verdades.
01 - Aquelas balas que parecem um dadinho de amendoim são deliciosas.
02 – A politica jamais poderá melhorar se não formos seres mais políticos e menos partidários.
03 - Religiões não funcionam se você não possuir religiosidade.
04 - Não importa quantas vezes você leia esse texto, ele pode simplesmente não fazer o menor sentido pra você, e acredite, esta tudo bem.
05 – Por último e não menos importante, quando pensar em desistir repense, pese os prós e os contras, mas caso essa seja a alternativa restante liberte-se, desista e recomece sem um pingo de pudor, vergonha ou duvida.
Para vislumbrar melhor o mundo, por vezes o melhor a se fazer é olha-lo do planeta que orbita dentro de você.

P. J.

sábado, 29 de abril de 2017

Escritor Publicado


Acho que os diálogos mais estranhos acontecem comigo por telefone. Como há uma recorrência de uma comunicação pouco efetiva e quase sempre surreal começo a pensar se existe um “jeito certo” de conversar por meio desse artefato maravilhoso criado por Alexander Graham Bell e eu ainda não saquei como utilizar essa técnica.

Esse aqui aconteceu hoje comigo. Por volta das 19h o telefone toca, e eu atendo sem olhar o identificador.

- Eu falo com o Lucas? – Perguntou uma voz rouca e pastosa.

- Sim, aqui é ele.

- Você faz um texto pra mim?

- Eu posso fazer sim.

- É que eu preciso de um texto e me falaram que você pode fazer um.

- Olha, eu tenho alguns tabus textuais. Dependendo sobre qual assunto é o conteúdo que você precise, eu não escrevo não!

Seguro a risada.

- Eu quero um conto medieval.

- Como é? Um conto medieval?

- Sim, com cavaleiros, espadas e muito sangue.

- Desculpe a pergunta, mas pra que você quer um texto medieval com espadas e sangue?

- E por que você quer saber?

- Nada. Por nada não. Bobagem. Você sabe com quantas palavras você precisa do texto?

- Não sei moço. Quantas palavras cabem em cinco folhas?

- A4?

- Não, sulfite.

- Cabem bastante na verdade. Tem alguma formatação especial que o texto precise seguir?

- Sim. Deve ser organizado em parágrafos, com diálogos e interação entre personagens.

- Entendi. Você vai publicá-lo em algum concurso ou coisa do gênero?

- E você precisa saber disso?

- Ajudaria. Eu poderia ter alguns parâmetros para entregar-lhe um material mais adequado ao que você precisa.

- Não, não! Eu quero que seja medieval e não adequado.

- !

- Você escreve pra mim?

- Em quanto tempo você precisa do texto?

- Consegue me enviar algo amanhã?

- Oi?

- Amanhã seria bom.

- Olha, eu não consigo escrever tão rápido. Não consegue me dar uma semana?

- Tudo isso? Não, eu preciso pra amanhã antes do almoço. Você não tem nada pronto aí não?

- Não tenho. Eu vou precisar criar do zero.

- Mas uma semana é muito tempo! Aí você me quebra.

- Poxa vida! Eu queria mesmo te ajudar, mas nesse prazo, fica difícil eu conseguir produzir algo com qualidade pra você. Até admito que eu escrevo um pouco devagar, mas mesmo assim, pra amanhã eu não dou conta não.

- Cara, isso é preguiça. Se você diz que escreve, então era pra criar um texto como esse em meia hora. Falta vontade pra você. Beira a vagabundice.

- Como é?

- Por sua culpa vou perder o prazo pra enviar minha história para a Antologia dos Cruzados* e não vou ser reconhecido como escritor pelo pessoal.

- Você escreve?

- Não. Mas eu ia pagar você pra escrever pra mim e publicar no meu nome. É a mesma coisa, o que conta é ter o texto no livro com meu nome embaixo.

- Entendi.

- Obrigado por nada, amigão! – Falou da forma mais irônica que conseguiu – Por sua falta de vontade, deixou de faturar trintão. Tchau.

A linha silenciosa me sussurrou mansamente algumas reflexões sobre competência e sobre noção das coisas. Talvez eu esteja precisando de um pouco das duas. Ou não. Ou sim. Me custou “trintão” não saber.


*O nome da antologia foi alterado para não expor ninguém a nada.

Leitores