quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Já pagou seu boleto hoje?



Há 26 dias havia certa expectativa sobre coisas novas ano novo, vida nova e essas coisas sobre as quais gostamos de idealizar.
O problema é que os dias passam o mês esta quase no fim, e nossa maior certeza são os boletos. Sim os boletos. Essas coisinhas infames com códigos de barras e data de vencimento.
Eles te surpreendem pulando da caixa de correio ou quando você abre a porta de casa, e vê que eles foram jogados ali debaixo da porta para te dar as boas vindas ao chegar.
A lista é enorme. Água, luz, condomínio, cartões de credito, aluguel, plano funerário, carro e por ai vai.
O único bom e sábio conselho é: Pague seus boletos. O não pagamento pode te deixar sem serviços básicos e na lista negra de proteção ao credito, e nunca se esqueça dos boletos invisíveis, pois esses são com certeza os mais urgentes.
Explico: Boletos invisíveis são aqueles que não chegam que não avisam sobre data de vencimento, mas podem acabar com seu dia ou mesmo destruir sua vida.
Imagine se você recebesse um boleto te dizendo que você deveria dedicar 2 horas por dia brincando com seu filho (a)?
Ou aquele boleto que diz que uma caminhada pode te ajudar com a saúde, e comer qualquer porcaria o tempo todo pode adiar seus dias por aqui?
Um boleto deixando claro que a atenção que você dá a seu aparelho telefônico é uma atenção roubada de seu marido ou esposa, de seu namorado ou namorada.
Um boleto que te lembrasse de que estar com alguém requer atenção, cuidados e confraternização?
Um boleto que te cobrasse sobre estar em casa totalmente de corpo e alma, e que te proibisse de entrar nela cada vez que seus problemas do trabalho ou do mundo lá fora viessem enroscados nas suas costas?
Um boleto que te cobrasse um afago no teu bicho de estimação, um bom dia para o porteiro, para a pessoa que limpa sua rua e recolhe o lixo. Um boleto para te cobrar do muito obrigado, por favor, pode passar e deixa que eu ajudo?
Um boleto que te obrigasse a abrir uma garrafa de vinho e cozinhar em casa pelo menos uma vez por semana?
Um boleto que te cobrasse a leitura de um bom livro e vencesse imediatamente caso você descuidasse de seu aprendizado e evolução continua?
Um boleto que te cobrasse mais conversa e menos gritos? Que te cobrasse mais postura e menos opiniões?
Um boleto que te cobrasse exemplos e não conselhos?
Nem os mais entendidos sobre bolas de cristal e técnicas adivinhatórias podem-te dizer como será seu ano, mas uma coisa é certa e definitiva, os boletos sempre chegam. Chegam por correio, chegam por e-mail, chegam por cobradores e chegam pela vida.
Os conselhos estão por toda parte. Alguns querem que você vença outros que você desista e existem ainda aqueles que torcem contra, mas o único e verdadeiro conselho que vale a pena seguir é este: Pague seus boletos. Pague os visíveis e os invisíveis.
Pague os que possuem código de barras gigantesco e aqueles que de tão imperceptíveis deixamos acumular numa mesa de sentimentos de rancor, dor, solidão, descrença e confusão.
O não pagamento de boletos pode cortar sua água, mas também podem cortar seu coração.
Podem negativar seu nome, mas podem também negativar sua honra e dignidade.
Podem cortar sua luz ou apagar sua luz.
Podem te fazer perder sua moradia de tijolos, mas podem também te fazer perder aquilo que você chama de lar.
Deseje o que quiser para esse ano, sonhe, faça planos, prometa algo se quiser, embora isso não seja aconselhável, mas acima de tudo! Pague seus boletos.


P.J.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Lava Jato no olho dos outros é refresco


Dia desses, pego uma corrida longa de táxi para o aeroporto de Curitiba. O taxista, desses bem-intencionados e todo simpático puxa conversa o tempo todo, perguntando minha opinião sobre assuntos que iam desde a tabela de classificação do Campeonato Brasileiro até a fome no continente africano.

- Mas a política no Brasil que está feia né? – Disse ele a certa altura, interrompendo no meio uma frase minha sobre o coringão.

- Está. Está feia pra caramba. Estamos no meio de uma crise...

- Esses políticos não prestam mesmo. Só querem saber de se aproveitar do povo. Ainda bem que inventaram essa Lava Jato.

- Inventaram?

- É. Esse Moro! Sabe, ele vai salvar o país. Você não acha?

- Acho que é um pouco mais complicado... Viu, aqui não é contramão?

- Só um pedacinho. Mas o Moro? Sabe, parece ser sério esse Juiz.

- Também acho. Ele atua dentro das regras e... Não estava fechado o sinal ali?

- Fechou, mas eu já estava embalado. Não dá nada não. Mas então, eu quero ver todos esses políticos presos, cara. Vai ser lindo, esse pessoal que não respeita nada.

- É, É. Viu, aqui nessa avenida não é só sessenta quilômetros por hora?

- Relaxa eu sempre ando a cem por aqui e nunca deu nada. Se ele se candidatasse a presidente eu votava nele. Ia endireitar o país. Você votaria também?

- Não sei, ele é um bom juiz. Mas para ser presidente precisa...

- Merda, olha a fila que ta aqui! Esses motoristas são muito lerdos. Vou cortar por fora.

- Mas você vai entrar na contramão e atravessar quem já estava na fila, não vai?

- Dá nada não, no trânsito tem que ser esperto. Mas então, o Moro. É Sérgio o primeiro nome dele, não é? Quero ver ele prender todo mundo. O Lula, a Dilma, o Temer, o Aécio... Tem que fechar todo mundo. Quebrou a lei, tem que ir preso.

- As regras são para todos, não é?

- Sim. Tem que seguir as regras. Se existe regra, tem que ser obedecida, porra. Lei é lei. O povo tem que parar de sofrer.

- Entendo. Olha, aqui é a faixa de pedestres. Vixe, você parou em cima!

- Dá nada não, aqui não é lugar de colocarem acesso pra pedestre. Só atrapalha o trânsito esse sinal aqui.

-Hum.

Fizemos o resto do trajeto em silêncio, pois aparentemente o motorista engatou uma conversa animada com outra pessoa, por mensagem via Whatsapp.

- Qual a companhia, doutor? - Perguntou chegando diante das portas de acesso ao saguão do aeroporto.

- Não sou doutor não. É aquela que tem nome de cor.

- Ah, beleza! Olha, não tem onde parar. Vou ficar em fila dupla aqui mesmo, não dá nada não.

- Não vai atrapalhar o trânsito?

- Os outros que esperem!


Pago o homem pela corrida e vou para a parte traseira do carro pegar minha bagagem. Em segurança na calçada, vejo o táxi se afastar, ostentando no para-choque um adesivo com os dizeres “Lava Jato. Eu apoio”.


segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Respeito é bom e os defeitos agradecem.


Antes da leitura, uma pequena pesquisa social.

Você não sabia dividir brinquedos?
Você tinha ciúmes de seus irmãos e irmãs mais novos?
Você se apaixonou perdidamente pela sua professora ou professor na 5° série?
Você amarrou uma toalha no pescoço, e fingiu que ela era uma capa e você um super-herói?
Você dormiu numa beliche e forrou a lateral imaginando que estava em uma cabana?
Você golpeou as plantas de sua mãe com um cabo de vassoura, enquanto fingia usar uma espada mágica que destruía monstros?
Você gastou tempo e uma pequena fortuna com álbuns de figurinhas que nunca ficaram completos?
Você achou que sabia tudo aos 16 anos, e resolveu desafiar seus pais e o mundo?
Você mentiu para namorar as escondidas?
Você deu importância a coisas que na verdade não tinham importância alguma?

Caso tenha respondido sim para a maioria das perguntas ou todas elas, acredite você é normal.
Pelo menos normal dentro dos padrões exigidos e pregados pela sociedade.
Normal de uma forma que talvez estejamos aprendendo a não sê-lo.
Normal de um jeito que só pode ser quem tem defeitos e comete pecados. Não falo de pecados capitais e muito menos de pecados que precisem de absolvição.
Falo de pecadilhos e defeitos que constroem aquilo que somos.
Existe em nossa cultura certa sede de padrões, cartilhas e passos para tudo e todos.
Existe um tamanho de bunda ideal, um tamanho de peito aceitável e corpos que precisam encaixar-se em certos moldes, de preferência com uma barriga tanquinho, e, é claro existe a busca pelo sucesso, seja lá qual for a sua denominação de sucesso.
Existem lugares frequentados por gente “Bonita”.
O Chá Detox da moda e a moda do supérfluo.
Em algum lugar da caminhada esquecemos o quanto é maravilhoso ser único, esquecemos que temos um jeito próprio de fazer as coisas e até mesmo de fazê-las de maneira errada.
Somos frutos de uma evolução que leva tempo.
Do primeiro choro até o túmulo uma quantidade absurda de erros, defeitos, tropeços e escolhas fracassadas é o que realmente deixará de ser esboço para torna-se aquilo que chamamos de vida.
Essa coisa de vida pronta, receitas prontas e passo a passo que leva todos ao mesmo lugar ou as mesmas conquistas é a maior estupidez de nosso século.
Eu gosto de saber que Einstein não era nenhum gênio na escola.
Que Lincoln não era um advogado brilhante.
Que a família Armstrong partiu da Escócia condenada à morte pela forca, mas foi Neil Armstrong que rumando em caravelas com destino a América dos sonhos livres embarcou em outra caravela, e em 20 de julho de 1969 foi o primeiro homem a pisar na lua.
Um sujeito que fora expulso da pensão onde morava, e viu-se forçado a morar no escritório onde trabalhava tinha como companhia apenas os ratos que eram atraídos por restos de comida, porém foi com seu pensamento criativo, observador e obstinado que ele deu vida ao rato mais famoso do mundo, sua criação chamava-se Mickey Mouse e seu criador era Walt Disney.
Os homens que criaram, escreveram os rumos da história, pintaram, descobriram e inventaram eram sábios e visionários a sua maneira, porém quando o assunto era futuro e fracasso eles sabiam o mesmo que eu e você, ou seja, nada.
Pedir uma opinião a terceiros é encontrar uma fila de profetas receosos sobre o que encontrarão na próxima esquina, mas sabedores da receita da vida pronta e dos conselhos sobre como vivê-la.
Existem debates em aberto sobre a sexualidade, sobre a cor da pele de cada um.
Existem verdadeiras guerras travadas entre direita e esquerda, discursões sobre o aborto e religiões.
Existem debates acirrados que acontecem atrás de uma tela de computador, e existe a comunicação olho no olho que morre a cada dia.
Homofobia, Neonazismo, Gordofobia, Amazônia, Estado Islâmico, Guerra da Síria, Refugiados, Muros entre Fronteiras e Testes Massivos de Misseis.
Falta falar sobre individualidade.
Falta debater a liberdade, mas não a liberdade bonita escrita num papel e impraticada na vida real.
Falta falar sobre valores que nos definem com pecados e diferenças, mas não como manada ou gado que precisa viver no mesmo pasto e comer a mesma ração.
Falta debater a beleza de ser o que se é.
Falta debater se tanto debate é abertura de mente ou fechamento de espirito.
Falta perguntar se seu discurso é baseado em liberdade ou na necessidade de que todos aceitem suas verdades e valores.
Falta entender se o debate será de mentes livres ou de cérebros cristalizados.
Falta falar sobre Deus, pois se ele criou todos á sua imagem e semelhança, teria ele usado uma forma?


P. J.








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