quinta-feira, 13 de abril de 2017

#OMartelodasBruxas


O Malleus Maleficarum, ou simplesmente “O Martelo das Bruxas” foi publicado no ano de 1486, na Alemanha, com objetivo de servir como manual de combate aos praticantes de heresia, tornando-se o guia dos inquisidores a partir do século XV. Dividido em três partes, segundo a Wikipédia, o livro relata as propriedades do demônio e sua ligação com a bruxaria, ensina a lidar com os malefícios do dia-a-dia e, claro, faz um detalhamento de como proceder com o julgamento e execução das sentenças dos acusados.

Quem assistiu ao filme The Crucible (As Bruxas de Salém, no título em português) teve uma ideia de como as coisas aconteciam naquela época, ainda que Hollywood tenha romanceado a questão, principalmente no que se refere à sede desenfreada que as pessoas tinham em acusar de bruxaria aquelas que não pensavam de forma igual a elas, utilizando o artifício como forma de se livrar de um adversário ou simplesmente pelo prazer de ver as fogueiras terem um motivo para serem acesas.

E por que eu gastei dois parágrafos inteiros para falar disso nesse texto? Simples: não consigo deixar de ver uma associação entre a prática de acusação feita no período da Santa Inquisição e o ódio disseminado amplamente, cada dia mais, nas redes sociais, onde se tenta destruir a imagem das pessoas pelos seus atos, muitas vezes, feitos sem o menor resquício de maldade ou intenções demoníacas.

Para ilustrar o que falo, vamos aos exemplos: Bel Pesce, conhecida empreendedora jovem, palestrante e impulsionadora de reflexões acerca da realização pessoal e profissional cometeu um erro. Não vou relatar aqui, pois acredito que a maioria conhece o caso. Quem não conhece, o Google está aí, em posse de todo o histórico para consulta. Pois bem, ela cometeu um erro, e ainda que tenha reconhecido a falta, recuado e pedido desculpas, teve sua vida revirada e exposta, com pessoas comentando com propriedade de causa toda a história de vida da moça – como se tivessem vivido tudo aquilo por ela – e, o que é mais interessante e característico do comportamento de ódio pelo ódio, recusando-se a ouvir o lado da garota. Como consequência, sua imagem foi queimada na fogueira do julgamento social com hashtag e tudo.

Mais recentemente, tivemos o caso com o professor e historiador Leandro Karnal, que em passagem por Curitiba, teve a oportunidade de jantar com o juiz Sérgio Moro. Embalado pelas praticas atuais, clicou o momento e postou em sua página no Facebook. Foi o bastante para atrair o ódio de uma multidão que jura ter um manual com instruções claras sobre com quem as pessoas devem ou não compartilhar uma alegre refeição, e ainda por cima, com credenciais de aprovar ou não a divulgação desse momento. Ainda que não tenha adentrado na fogueira propriamente dita, o professor sentiu o peso desse ódio, ao ponto de excluir a publicação, admitindo depois que excluí-la foi um erro e não tornará a fazer isso novamente em eventuais ocorrências similares. Claro que essa declaração fez com que as tochas fossem levantadas ansiosas por uma oportunidade de acenderem a madeira.

O caso mais recente é sobre a figura do empresário, apresentador e patrão Silvio Santos, em um diálogo com sua funcionária Rachel Sheherazade, onde o animador é acusado de assédio moral, machismo, deselegância, etc, etc, etc. Quão satisfatório seria, para os militantes do ódio, conseguirem queimar um figurão como o dono do Baú, não? Seria o carnê da felicidade quitado e premiado, até que o próximo alvo fosse escolhido para alimentar o fogo. O descontrole. A ignorância e a tirania desenfreada.

Quero deixar claro que não é uma questão de gostar ou não das figuras que citei como exemplo. Escolhi essas, pois repercutiram na mídia em escala maior, mas se olharmos com cuidado será visto que isso acontece o tempo todo, em diferentes níveis nas redes.

Estamos vivendo, no Brasil, a era da inquisição europeia adaptada aos novos tempos, onde os próprios acusadores são também os juízes e carrascos.


Com essas palavras, eu já me adianto em explicar que não estou acusando lados. Aliás, engana-se quem pensa que o ódio tem lados. Esquerda ou direita, isso é ilusão. O ódio é, em uma teoria particular, uma forma das pessoas se satisfazerem com a queda do outro. Com a destruição e angustia infligida ao próximo. É uma forma de diversão, enquanto o fogo queima e destrói aquilo que elas queriam ser, mas não foram capazes de alcançar, seja a pessoa azul ou vermelha.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Dizem Por Ai.


Dizem por ai que você deve desejar tudo que puder, que a busca do sucesso virou prioridade absoluta, mesmo que o significado de sucesso seja relativo e você ainda não tenha descoberto o que ele significa pra você. Dizem inclusive que existem receitas para fazê-lo, 10 dicas para isso, 05 passos para aquilo e 15 maneiras de realizar seus sonhos.
Dizem por ai que choro virou sinônimo de fraqueza, que tristeza trata-se com tarja preta e solidão é coisa de gente depressiva.
Dizem por ai que é preciso ter o que mostrar que gabaritos prontos devem produzir pessoas preparadas para a vida, dizem isso como se vida fosse uma roupa feita sob medida, e criaturas humanas saíssem de uma espécie de forma que nos torna todos iguais.
Gosto da chance de errar sem usar manuais, gosto da possibilidade de virar em cada esquina sem saber o nome da rua ou a previsão do tempo.
Gosto até mesmo da duvida, mas dizem por ai que duvida é coisa de gente insegura.
Gosto da solidão, esse momento tão meu, onde a conversa é cara a cara, o drink é suave e encontro coisas ao meu respeito que havia deixado num canto qualquer, cheias de poeira e mofo, mas que depois de uma faxina mental ficam novas em folha.
Dizem por ai, que brigas por partidos políticos talvez resolvam a política e talvez a falta de democracia em respeitar posições diferentes politize ás pessoas.
Andam atacando diferenças e crenças, andam caluniando o que é diferente e abençoado o ódio nosso de cada dia.
A vida, e o tempo que pouco se importam com todas essas bobagens seguem seu rumo á passos firmes.
A vida fica mais leve por conta das coisas que caem pelo caminho, coisas que eram de extrema importância já não causam a mesma pressa, coisas que eram inegáveis são postas em duvida e sentimentos que nos deixavam acordados fazem parte de uma lembrança qualquer e o sono é tranquilo.
O tempo fica mais curto, o sorriso fica mais fácil. O desapego e o desinteresse são mais praticáveis e as escolhas são mais seletivas.
Só mesmo Deus pra ter uma sacada genial dessas, parece até que estou o ouvindo dizer:
- Vocês ficarão velhos, a pele se enrugará, a coluna se envergará, seus olhos perderão a acuidade e sua saúde definhará com a morte celular, mas eu prometo que a cada ano serão mais sábios e mais leves.
Seja pelo amor, pela dor, pela necessidade, pelo espiritual ou pelo nosso próprio bem estamos condenados a evoluir.
Falo sobre não desejar estar sempre na dianteira de coisa alguma, numa corrida de cavalos na qual não apostamos.
Falo de não ser pior e nem melhor, mas de ser apenas o que se é.
Dizem por ai que é preciso se fazer esforço para isso ou aquilo, mas francamente a preguiça deve ter me pego de jeito.
Não gosto de fazer esforço, gosto de amar de graça, gosto de aperto de mãos firmes, gosto de amar por um olhar, por conta de um sorriso ou uma gentileza. Amor e amizade com esforço é comida sem tempero, sapato apertado, pão sem manteiga, praia sem sol e amizade sem abraço.
E o esforço para ser gentil? Esforço para sorrir? Esforço para engolir? Esforço para fingir? Sem falar no esforço de trocar de mascara a cada ocasião, tem gente por ai que vive em clima de carnaval o ano todo, é um verdadeiro baile de mascaras.
Dizem por ai que é ‘A’ quem esta com a razão, mas ‘B’ foi quem deu a informação, enquanto ‘C’ chegava de mansinho na contramão e foi justamente por isso que ‘D’ não conteve sua indignação, falou mal de ‘E’ que da história não sabia um tostão, pois estava preocupado com ‘F’ que quebrou seu coração.
Dizem por ai que sabem exatamente do que você precisa para ser feliz, do que você precisa para superar toda sorte de adversidades e medos. Dizem inclusive que existe uma espécie de passo a passo, uma receita, uma seta e direção. Falta só dizer quem criou mais esse tipo de alienação.
Se for preciso uma dose de sofrimento sofra e purgue ele de dentro para fora, se é necessário lágrimas, deixe que caíam. Se for necessária uma higiene mental ou espiritual faça a sua maneira, mas não deixe de purgar, não engula coisas que te envenenam aos poucos, e te matam lentamente.
Somos assim, guerreiros e destemidos, covardes e amedrontados. Hora protetores e hora aqueles que precisam de proteção, somos heróis e vilões, mocinhos e bandidos e no final das contas estamos tentando acertar um alvo que só é visto por nós mesmos.
Dizem por ai que é melhor confiar desconfiando, andar pela sombra, que seguro morreu de velho, que gato escaldado tem medo de água fria e macaco velho não põe a mão em cumbuca.  É como um dia de campeonato, o estádio esta lotado, os times preparados e as bandeiras tremulam ao vento, mas o placar é 1x0 para a vida antes do inicio da partida.
Não é o que dizem que me preocupa tanto, mas a velha pergunta do poeta Leandro Gomes de Barros que questiona:
Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

G 20.


Certo dia aconteceu uma pequena reunião.
O proposito era traçar planos e metas para o futuro.
Os animais se reuniram logo ao por do sol, e se puseram a debater.
Desculpem-me, esqueci-me de mencionar que o texto era sobre animais, porém qualquer semelhança com o mundo dos humanos não é mera coincidência.
Uma coruja com dois doutorados fez uma abertura dinâmica, com frases cheias de efeito e uma retorica impecável.
Logo em seguida foi dada a palavra ao papagaio, que por sua vez fez todo tipo de reclamação a cerca da situação.
A preguiça dormia tranquilamente e impassível.
Os macacos faziam o que era típico de sua espécie, pulavam, gesticulavam, faziam macaquices e quando ninguém estava olhando atiravam cocô.
O tucano lançou mão de seus óculos, limpou a garganta e se preparou para tomar a palavra.
O G20 dos bichos era um troço organizado e os trabalhos aconteciam de maneira ordeira, o maior problema, no entanto eram justamente os problemas, pois eram sempre os mesmos.
O tatu queria mais espaço e liberdade para cavar suas tocas.
As tartarugas achavam que o mundo globalizado e a tecnologia iam a passos rápidos demais.
O bicho preguiça pedia a paz mundial, afinal não era possível se dormir com aquele barulho.
As onças pintadas lutavam pelo direito de se pintarem de preto e se transformarem em panteras.
Os papagaios prometiam um protesto que fecharia a Avenida Paulista, pelo direito de serem respeitadas como araras.
O cachorro do mato, não pode deixar de escapar o comentário que deixou todos perplexos. Ele disse que nos últimos anos levava uma vida de cachorro.
O leão que era o rei de tudo resolveu que deveria ser elaborada uma lista com metas claras. Depois que a tal lista estivesse pronta, todos deveriam colaborar com o FMB –(Fundo Monetário dos Bichos).
Uma anta do mato pediu a palavra, e alegou com argumentos fortes que o uso de tal verba deveria ter como prioridade, os bichos mais pobres e aqueles que estivessem na parte de baixo da pirâmide da cadeia alimentar.
A anta foi aplaudida de pé depois de dizer o óbvio.
O canário que era um bicho emergente, falou sobre sua preocupação de que a crise respingasse em outras florestas.
Um barulho foi ouvido e todos se voltaram para ver o que acontecia.
Na entrada a águia e o burro se aproximavam ambos conversavam descontraidamente sem tomar conhecimento dos olhares desdenhosos.
Os olhares tinham motivo, afinal o burro e a águia chegavam sempre atrasados.
A águia foi logo se explicando.
- Me desculpem, mas todos sabem que o pico onde construí meu ninho fica a léguas de altura e todas as montanhas menores do vale foram desapropriadas para o assentamento dos sem ninhos.
Em seguida foi à vez do burro.
- Bom eu não moro tão longe assim, mas sempre me perco no caminho. Na verdade não entendo o porquê todos os anos o local de reuniões muda. Isso complica sobremaneira meu deslocamento.
A coruja pediu silêncio para que pudessem prosseguir com a reunião.
Alguém perguntou pelo mico leão dourado. O senhor tamanduá explicou que dada à situação da família do mico que desaparecia a cada dia, o mico havia reduzido suas saídas da arvore a no máximo reuniões de condomínio.
A reunião prosseguiu.
Houve um debate sobre a situação dos bichos aquáticos, que desejavam uma floresta só para seu povo, o que segundo aquele conselho era um absurdo, já que eles habitavam as aguas.
Outro debate acalorado foi sobre as religiões e suas praticas sociais.
Houve troca de acusações quando os macacos foram acusados pela girafa, de estarem colhendo cocos enriquecidos com urânio.
Os macacos se defenderam dizendo que os cocos eram para fins pacíficos.
A comunidade das lagartixas do Facebook começou a enviar mensagens de protesto, pois sempre eram confundidas com lagartos e para elas isso era homofobia.
O hipopótamo se prontificou a contar sua historia e explicar os danos psicológicos causados pelo bullyng.
A águia e o burro, apenas observavam.
Naquela noite, a reunião ainda contaria com a presença ilustre do elefante.
As hienas por sua vez, eram contra a presença dos elefantes naquele conselho, pois diziam que os elefantes não tinham o direito de enfiar a tromba nos assuntos da floresta.
E assim a reunião prosseguiu por alguns dias.
Você deve estar interessado nos resultados imagino.
Eu explico: Como toda e qualquer reunião que existe apenas para que cada um cuide de seus próprios interesses e as pedras de seu sapato, essa também não deu em nada.
Quando o assunto principal do discurso são as nossas dores, nossas dificuldades e aquilo que não temos ou não realizamos, o resultado será sempre o mesmo improdutividade.
Podemos enxergar armas de destruição em massa, podemos discordar do resto do mundo porque o resto do mundo não vive e não pensa da mesma maneira que nós.
Podemos usar o engodo da liberdade e democracia.
Podemos invadir países e matar ditadores em nome da paz. Podemos abandonar estes países sem ditadores, sem educação, sem planejamento politico e com milhares de civis mortos.
Podemos e devemos assistir de camarote o fanatismo religioso e o terrorismo fazer sua parte, nesta hora eu diria que é o momento ideal para nos preocuparmos com o que pode ‘Respingar’ no resto do mundo.
Quando os “Bichos” não vivem com seus direitos básicos garantidos e respeitados pelos tratados assinados nas reuniões de cúpula, ou mesmo não possuem acesso aos itens mais básicos de sobrevivência como comida, educação, liberdade de vida de pensamento e culto, cultura e direitos humanos que os incentivem a viver como humanos direitos acreditem, não tem G20 que de jeito nem acordo que se sustente.

Aproveito o fim deste texto para pedir desculpas aos bichos, e deixar claro meu profundo respeito e apresso por todas as espécies.

Leitores