quinta-feira, 29 de novembro de 2018

O que te completa?





Barulho de chuva no telhado, mais um sonho pra sonhar.
Um frio na barriga, coisas boas acontecendo, ver seus filhos crescendo.
Entender as coisas complicadas do universo para dar valor as mais simples.
Bocejar com gosto, afagar com beijo e dividir um desejo.
Ter mais uma chance, escrever um poema e resolver um problema.
Mudar de cabelo, assoviar estalando o dedo, andar contra o vento e esperar tudo há seu tempo.
Comer fruta madura mesmo que seja de dentadura, envelhecer com rugas, mas manter a postura.
Amar quem se ama, ou começar um amor, tomar banho de mangueira e fingir que é cachoeira.
O que te completa?
Andar por uma vida curva ou procurar uma reta? Vá a pé ou compre uma bicicleta, seja lá do jeito que for procure sua meta.
Ria alto, fale baixinho, explique com paciência, perdoe com o coração e ame com mais paixão, não critique o que não conhece, não discuta aquilo que não entende, aprenda tudo que puder e aplique quando quiser.
Seja você, ame você, concorde com você, discorde de você, dê um presente a você. Não se pergunte o quanto falta, não procure ter certeza de tudo, seja bem vindo ao verdadeiro mundo.
Acredite em Deus, preserve o bom e o belo e acredite nos seus.
Lá vem mais uma estação, dizem que tem as cores do verão.
Sair do inferno, aproveitar o inverno.
Buscamos em todos os lugares e procuramos sinais, esquecemo-nos, no entanto que é no outono que as folhas caem.
Esperamos tanto a chegada de uma nova era, que nem percebemos quando já é primavera.
O que te completa?
Tire o dia para jogar bolinha de gude, nadar no açude e bater figurinha. Faça um campeonato de cuspe a distância, dance ciranda, brinque de pega-pega e volte a sua infância.
Respire fundo, observe o mundo, dê um tempo a si mesmo. Não espere nada de ninguém, não ajude com estardalhaço, não cobre o que não merece e não espere colher o que não plantou.
Seja discreto, seja sincero, fale a verdade, ela dói. Mas os que a dizem possuem mais chances de serem perdoados e perdoarem a si mesmos.
Não escolha vinho apenas pelo rotulo, nem livro pela capa e muito menos pessoas por aparência. Respeite as deficiências e não seja tão duro com exigências.
O que te completa?
Musicas para dançar, historias para contar e memorias boas pra relembrar.
Fé na vida, fé em você mesmo e fé na caminhada.
A solidão que apascenta a alma numa tarde chuvosa com sua bebida e seu livro predileto, e a solidão em meio às multidões.
Tempo para fazer tudo, e tempo para poder simplesmente não fazer nada e descansar na beira da estrada.
Deve ser questão de tempo andar no sol esperando pelo vento.
Deve ser por conta da fase da lua que tudo fica mais belo no meio da rua.
As bailarinas com suas sapatilhas magicas, o som de um violino ao fundo e eu sorrindo por dentro aqui no meu próprio mundo.
Ouvi segredos que prefiro não dizer, vi cores que não consegui distinguir, não entendi as regras e por isso quebrei algumas.
Você que tem sonhos grandes demais e essa mente inquieta, nem sempre perguntas são necessárias e nem sempre a resposta é certa.
Vivemos um pedaço de cada vez. Na verdade são quebra cabeças que são montados para que o todo seja mostrado.
Nada é tão certo que não esteja errado, nada é tão duro que não seja quebrado, nada é tão vazio que não possa ser preenchido e nada que sobe esta livre da queda, mas o conselho é sempre o mesmo:
Dê valor a tudo que te completa.

Paulo Joaquim (P.J).

sábado, 17 de novembro de 2018

Dona Joana não sabia dançar.





Dona Joana não sabia dançar, mas sabia falar e sorrir bastante.
Andava com dificuldade, mas andava sem a ajuda de bengala e tinha a mente lúcida.
Dona Joana não sabia dançar, mas contou-me que sabia fazer casaquinhos de lã, me falou sobre seus netos e as dúzias de casaquinhos que havia feito para eles.
Dona Joana era menina pobre, precisou cuidar dos irmãos mais novos e por isso não frequentou o Mobral, mas aprendeu a escrever seu próprio nome e ler um pouco. Disse-me que a melhor parte de saber ler e escrever, é não precisar pedir informação sobre qual o ônibus precisava pegar e o melhor de tudo, não precisava mais sujar seus dedos para marcar documentos com digitais, bastava assinar.
Dona Joana sabia assinar, o que ela não sabia era dançar.
Ela sabia lavar, passar, limpar, cozinhar, pintar guardanapos e contar historias.
Dona Joana quando virou moça, tinha vergonha dos rapazes, se achava baixinha demais, feia demais, pobre demais e não sabia dançar.
Nas quermesses do padre Antônio, Joana era convidada especial, ajudava a cuidar das barracas e fazia os melhores doces da quermesse - dizia Padre Antônio.
Dona Joana, ou joaninha para os íntimos, ficava lisonjeada por ser elogiada pelo santo padre que por sinal também tinha nome de santo.
Dona Joana cresceu, mas continuou fazendo roupas de boneca para as meninas, secretamente ela brincava também e imaginava que todas as bonecas formavam um grupo de balé.
O seu primeiro namorado era moço serio trabalhador e tinha até uma bicicleta nova, mas o namoro durou pouco. O rapaz sempre queria fazer coisas com as quais Joaninha não concordava.
Todos se perguntavam, porque Joaninha não queria mais namorar aquele moço tão distinto e trabalhador que ainda por cima tinha uma bicicleta nova?
Dona Joana sabia o que queria, o que ela não sabia era dançar.
Depois de alguns anos sem que ninguém esperasse Dona Joana se casou.
Dona Joana foi feliz, teve filhos, trabalhou, foi mãe e dona de casa, que segundo ela era a segunda profissão mais difícil do mundo.
- Ser dona de casa é a segunda profissão mais difícil do mundo? – Perguntei.
- Sim meu filho - Me responde Dona Joana apoiada em meu braço.
- E qual é a primeira? Perguntei.
- É a das bailarinas meu filho.
- Existem aquelas que fazem rodopios no ar.
- Algumas dançam com rodinhas nos pés, já imaginou meu filho? E elas precisam treinar todo dia, ficam cheias de calos, mas eu acho que calo é igual dificuldade. Todo mundo tem as suas.
Eu apenas meneio a cabeça concordando, afinal não tem como discordar de Dona Joana.
Dona Joana ficou viúva muito cedo, mas não se casou novamente. Dona Joana sabia que existem coisas que não podem ser substituídas, o que Dona Joana não sabia era dançar.
Conheci Dona Joana em um asilo, disse a ela que gostaria de escrever algo sobre sua historia.
Dona Joana me disse encabulada – Mais meu filho, quem é que vai ler essas coisas de uma velha que só sabe assinar o nome e ler o nome do ônibus?
Eu apenas ri com vontade de chorar, As Donas Joanas que existem espalhadas por ai não fazem ideias de como seu jeito simples e despojado faz falta em nossos dias atuais cheios de etiquetas e vazios de sentimentos.
Dei um grande beijo em Dona Joana e me despedi.
Depois de um mês voltei a Ver Dona Joana, e ela me perguntou:
- Já escreveu?
Ao que respondi que não, pois ainda não tivera tempo.
Dona Joana fez um ar sério, coçou a cabeleira branca me olhou nos olhos e perguntou; Você pode escrever que eu gosto de dança?
- Claro - respondi.
- Eu posso escrever o que a Senhora pedir.
- Escreva o que você achar melhor meu filho, eu não entendo nada dessas coisas de escrever, mas não esqueça que eu gosto de dança – Disse Dona Joana com um sorriso envergonhado.
Eu sorri e disse que o que eu gostaria de fazer era uma espécie de homenagem, e ali sentados continuamos a papear.
Ela me falou sobre sua vida, sobre seus filhos que a visitavam cada vez menos e sobre o último casaquinho de lã que havia feito.
Falou sobre sonhos, pessoas, família e é claro sobre dança. Disse-me que seu único arrependimento em vida era não ter aprendido a dançar.
- Eu acho que quando agente é pequeno deviam ensinar agente a dançar, do mesmo jeito que ensinam a não falar palavra feia e obedecer aos pais – Disse Dona Joana. E eu concordei plenamente.
Faz cinco meses que Dona Joana faleceu.
Dona Joana não ouviu esse texto ser lido como prometi, mas li depois em uma sessão especial de leitura só para ela.
Em meio a um mundo cada vez mais separado e hipócrita, encontrar esses pequenos milagres do mundo que nos fazem rir, pensar e entender como o mundo é grande e a vida pequena é um privilegio.
Dona Joana não sabia dançar, mas escreveu seu nome diversas vezes num caderninho para treinar a assinatura.
Dona Joana fez dezenas de casaquinhos, mesmo sem a certeza de que seriam entregues, pois certa vez me disse que o importante era sempre fazer algo.
Dona Joana está feliz e com certeza já aprendeu a dançar.
Dona Joana era uma dessas pessoas fantásticas que agente ama de graça a primeira vista.
Ela sabia tudo sobre sonhos, criar filhos, viver, sorrir nas horas difíceis e contar historias maravilhosas.
O que Dona Joana não sabia era dançar, mas isso foi resolvido. Pois posso vê-la cercada por anjos que lhe ensinam todos os passos, nos intervalos para descanso Dona Joana conta uma de suas historias maravilhosas e os anjos se divertem a valer.
É fundamental conhecer pessoas assim.
É mais fundamental ainda depois de conhecê-las, fazer aulas de dança.


Paulo Joaquim (P.J).

domingo, 11 de novembro de 2018

João e Maria.






João corria pela rua.
Enquanto corria chutava pedras, latas, poças d’água ou qualquer coisa que encontrasse.
O tênis de João tinha buracos.
Sua mãe sempre dizia: João não chute tudo pelo caminho moleque, não vê que assim estraga o tênis!
João apenas sorria, era moleque demais para entender o que significava comprar um tênis novo, mesmo porque, sempre herdava o tênis e ás roupas dos irmãos mais velhos.
João era alegre, era impossível olhar para aquele moleque e não vê-lo sorrindo.
Maria chegou à escola.
O carro era bonito, mas Maria era muito mais.
Seus olhos eram claros, sua pele de uma brancura angelical, seus sapatinhos com um laço de fita estavam impecavelmente limpos, seu vestido parecia feito para bonecas, mas era isso mesmo que Maria era - Uma boneca.
João como sempre estava correndo, ele e meia dúzia de moleques brincavam, seus cabelos estavam desgrenhados e suas roupas sujas.
 João havia perdido um dente de leite, mas era um banguela simpático, jogou seu dente no telhado, fez um pedido e foi viver a vida, e que vida!
A vida de João era uma correria. Estudava pela manhã, ajudava o pai na feira, jogava bola, enxia o saco de sua mãe, e para fechar com chave de ouro, brincava de esconde-esconde e pega-pega até sua mãe dizer que era hora do banho e do jantar.
Maria fazia aulas de dança, inglês e tocava piano.
A professora de Maria dizia que a menina era uma dádiva, mas Maria não se sentia assim.
Às vezes Maria gostava de ficar trancada em seu quarto pensando na vida, em alguns momentos seu semblante era triste.
A professora de João conversava com sua mãe na reunião:
- Dona Silvia, precisamos aconselhar o João, ele não se dedica, suas notas estão baixas e ele lê muito mal.
Dona Silvia coçava os cabelos balançava a cabeça e dizia:
- Esse menino não tem jeito não Dona Fessora, é bom menino, mas sempre foi assim.  João estava atrasado duas séries.
Maria estava em uma festa. As pessoas eram adultas e Maria tentava se comportar como uma delas. O pai de Maria trabalhava em um banco importante, portanto ia a festas importantes com pessoas importantes, e Maria que não via nada de importante naquilo acompanhava os pais.
João resolveu que iria estudar, pois caso não estudasse iria ser reprovado mais uma vez.
Maria não teve problemas com as provas finais, era uma das primeiras de sua classe e foi aprovada com louvor.
João se preparava para o momento da ceia de natal. Sua mãe lhe pedia paciência, explicava que aquela era uma data importante, falava sobre o menino Jesus, sobre a manjedoura e tudo mais, mas João queria mesmo era abrir seu presente e atacar a comida.
Na pequena casa de João tudo era festa, pessoas que eram parentes ou não, se acomodavam como podiam, afinal a galinhada da Dona Silvia ninguém podia perder.
Dona Silvia estava transbordando de alegria, João fora aprovado, recebeu até elogios de sua professora.
João ainda não sabia, mas seu pai iria lhe fazer uma surpresa.
Quando o relógio marcou meia noite, Dona Silvia pediu silencio e todos começaram a rezar um pai nosso. Logo em seguida o som foi ligado e todos se entregaram a alegria do natal.
O pai de João era feirante, homem simples e humilde, mas de um caráter irrepreensível.
Foi até a pequena árvore de natal, e de lá tirou um pequeno embrulho, olhou para João com lágrimas nos olhos e disse - Filho! Isso é para você.
João não conseguia acreditar no que viu quando desembrulhou o pacote.
Um tênis novinho brilhava bem na sua frente. João pulou no pescoço do pai e lhe beijou durante meia hora, finalmente teria um tênis mais resistente para chutar pedras, latas, poças de lama e etc...
Maria estava sentada ao lado de uma de suas primas, a mesa era grande e a ceia era farta.
Maria ganhou novos vestidos, bonecas, sapatos e ganhou também um lindo caderno de desenho que usaria no próximo ano da escola.
Mas Maria não se sentia bem, estava com um pouco de febre, a babá sempre dizia:
- Essa menina tem uma saúde muito frágil, é preciso tomar cuidado, e nunca tomar friagem.
A diretora queria falar com João, lhe explicou que naquele ano ele estudaria em uma nova sala e com novos amigos, pediu-lhe também que ele repetisse o sucesso do ano anterior e desejou-lhe boa sorte.
João estava atrasado, chegou até a porta e parou, conferiu o numero da sala e viu um monte de gente que não conhecia, a professora olhou para ele e com um sorriso pediu que entrasse.
A professora disse aos demais:
- Pessoal este é o nosso novo amigo João, e este ano ele estudará conosco.
João ficou embaraçado quando todos os olhares se voltaram para ele, buscou com os olhos um lugar vago e sentou-se.
João passou alguns minutos buscando um rosto familiar, mas não encontrou nenhum.
A professora então chamou:
- Maria você poderia ler o texto para a classe?
Maria estava sentada na primeira fileira, levantou-se e foi à frente da classe.
João depois de mil anos não poderá explicar o que sentiu naquele momento.
Meu Deus ele pensou - Como seu olho é claro, como sua pele é branca, como seus sapatos são limpos, e que vestido era aquele? Parecia vestido de boneca!
João não se deixou impressionar apenas pelo sapato, afinal seu tênis também era novinho em folha, pelo menos até encontrarem os primeiros obstáculos pelo caminho.
Durante o intervalo, um acidente tirou o sorriso do rosto de João, Pereba seu melhor amigo sem querem derrubou seu pão com ovo. Maria que assistia a tudo sorriu.
João não estava com tanta fome assim e também estava sem animo para brincadeiras, algo naquela manhã havia mexido com João, e ele não parava de pensar - Que pele branca, que olho claro e o vestido então!
João resolveu que naquele dia não iria brincar, apenas sentou-se em um canto e lá ficou ouvindo os gritos dos amigos que lhe chamavam para a brincadeira.
Quer um pedaço de bolo? - Perguntou Maria.
João se levantou com um pulo - Que olho era aquele pensava João, e o vestido então!
João pegou um naco de bolo e colocou na boca, só depois percebeu que o pedaço era grande demais, ficou com a boca cheia e as bochechas vermelhas enquanto mastigava. Maria apenas sorria.
Você devia estar mesmo com fome - Disse Maria sorrindo.
João sem saber o que dizer, apenas balançava a cabeça e tentava engolir o bolo.
Vamos até o rio depois da aula? - Perguntou João.
Por que quer me levar até o rio? - Perguntou Maria.
Hora você me deu bolo, e eu quero te agradecer - Disse João.
Era o tipo mais estranho de agradecimento que Maria tinha visto, mas aceitou assim mesmo.
Maria aprendeu a nadar no rio com João.
João aprendeu a estudar com Maria.
Maria aprendeu a sorrir com João.
João e Maria fizeram uma trilha de migalhas.
João aprendeu que não devia chutar tudo que encontrava pela frente com Maria.
Eles estão juntos por ai em algum lugar.
Sofreram enfrentaram preconceitos e discriminações, mas resolveram fazer uma trilha de migalhas.
João se formou com a ajuda de Maria.
Maria compôs uma musica em seu piano para João.
João e Maria tiveram filhos, brigaram, desentenderam-se, expuseram todas as suas diferenças. João e Maria tiveram fracassos e sucessos, riram e choraram juntos, passaram por toda sorte de dificuldades, mas fizeram uma trilha de migalhas.
João é um homem melhor a cada dia com a ajuda de Maria.
Maria é uma mulher que encontrou significado nas coisas simples com João.
A profissão deles não importa.
A família rica de Maria tentou, mas não conseguiu seguir a trilha de migalhas.
A família pobre de João preocupava-se que a trilha de migalhas fizessem ambos se perderem ao longo do caminho.
João e Maria fizeram guerra de travesseiros, fizeram economia, assaram um bolo e tomaram banho de mangueira fingindo que era uma cachoeira.
 João e Maria não deixaram uma trilha de migalhas para marcar o caminho, afinal eles não estavam perdidos e não pretendiam voltar atrás, apenas descobriram que seu status, seu tênis velho, a cor da sua pele, suas diferenças e tudo o mais precisam virar migalhas.
João segurou a mão de Maria.
Maria segurou a mão de João.
E foi assim, que João e Maria descobriram que é de mãos dadas que fazemos a trajetória dessa estrada que chamamos de vida, pois sem uma mão firme e companheira, a jornada não faz o menor sentindo e todo o resto é apenas migalhas.
Todos concordavam que uma trilha de migalhas era útil, como no conto de João e Maria, pois na vida todos podem se perder ou sair do caminho.
Nosso João e nossa Maria descobriram que é justamente transformando certas coisas em migalhas que a gente se encontra e acha o caminho.

Paulo Joaquim (P.J).

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