sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Lava Jato no olho dos outros é refresco


Dia desses, pego uma corrida longa de táxi para o aeroporto de Curitiba. O taxista, desses bem-intencionados e todo simpático puxa conversa o tempo todo, perguntando minha opinião sobre assuntos que iam desde a tabela de classificação do Campeonato Brasileiro até a fome no continente africano.

- Mas a política no Brasil que está feia né? – Disse ele a certa altura, interrompendo no meio uma frase minha sobre o coringão.

- Está. Está feia pra caramba. Estamos no meio de uma crise...

- Esses políticos não prestam mesmo. Só querem saber de se aproveitar do povo. Ainda bem que inventaram essa Lava Jato.

- Inventaram?

- É. Esse Moro! Sabe, ele vai salvar o país. Você não acha?

- Acho que é um pouco mais complicado... Viu, aqui não é contramão?

- Só um pedacinho. Mas o Moro? Sabe, parece ser sério esse Juiz.

- Também acho. Ele atua dentro das regras e... Não estava fechado o sinal ali?

- Fechou, mas eu já estava embalado. Não dá nada não. Mas então, eu quero ver todos esses políticos presos, cara. Vai ser lindo, esse pessoal que não respeita nada.

- É, É. Viu, aqui nessa avenida não é só sessenta quilômetros por hora?

- Relaxa eu sempre ando a cem por aqui e nunca deu nada. Se ele se candidatasse a presidente eu votava nele. Ia endireitar o país. Você votaria também?

- Não sei, ele é um bom juiz. Mas para ser presidente precisa...

- Merda, olha a fila que ta aqui! Esses motoristas são muito lerdos. Vou cortar por fora.

- Mas você vai entrar na contramão e atravessar quem já estava na fila, não vai?

- Dá nada não, no trânsito tem que ser esperto. Mas então, o Moro. É Sérgio o primeiro nome dele, não é? Quero ver ele prender todo mundo. O Lula, a Dilma, o Temer, o Aécio... Tem que fechar todo mundo. Quebrou a lei, tem que ir preso.

- As regras são para todos, não é?

- Sim. Tem que seguir as regras. Se existe regra, tem que ser obedecida, porra. Lei é lei. O povo tem que parar de sofrer.

- Entendo. Olha, aqui é a faixa de pedestres. Vixe, você parou em cima!

- Dá nada não, aqui não é lugar de colocarem acesso pra pedestre. Só atrapalha o trânsito esse sinal aqui.

-Hum.

Fizemos o resto do trajeto em silêncio, pois aparentemente o motorista engatou uma conversa animada com outra pessoa, por mensagem via Whatsapp.

- Qual a companhia, doutor? - Perguntou chegando diante das portas de acesso ao saguão do aeroporto.

- Não sou doutor não. É aquela que tem nome de cor.

- Ah, beleza! Olha, não tem onde parar. Vou ficar em fila dupla aqui mesmo, não dá nada não.

- Não vai atrapalhar o trânsito?

- Os outros que esperem!


Pago o homem pela corrida e vou para a parte traseira do carro pegar minha bagagem. Em segurança na calçada, vejo o táxi se afastar, ostentando no para-choque um adesivo com os dizeres “Lava Jato. Eu apoio”.


segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Respeito é bom e os defeitos agradecem.


Antes da leitura, uma pequena pesquisa social.

Você não sabia dividir brinquedos?
Você tinha ciúmes de seus irmãos e irmãs mais novos?
Você se apaixonou perdidamente pela sua professora ou professor na 5° série?
Você amarrou uma toalha no pescoço, e fingiu que ela era uma capa e você um super-herói?
Você dormiu numa beliche e forrou a lateral imaginando que estava em uma cabana?
Você golpeou as plantas de sua mãe com um cabo de vassoura, enquanto fingia usar uma espada mágica que destruía monstros?
Você gastou tempo e uma pequena fortuna com álbuns de figurinhas que nunca ficaram completos?
Você achou que sabia tudo aos 16 anos, e resolveu desafiar seus pais e o mundo?
Você mentiu para namorar as escondidas?
Você deu importância a coisas que na verdade não tinham importância alguma?

Caso tenha respondido sim para a maioria das perguntas ou todas elas, acredite você é normal.
Pelo menos normal dentro dos padrões exigidos e pregados pela sociedade.
Normal de uma forma que talvez estejamos aprendendo a não sê-lo.
Normal de um jeito que só pode ser quem tem defeitos e comete pecados. Não falo de pecados capitais e muito menos de pecados que precisem de absolvição.
Falo de pecadilhos e defeitos que constroem aquilo que somos.
Existe em nossa cultura certa sede de padrões, cartilhas e passos para tudo e todos.
Existe um tamanho de bunda ideal, um tamanho de peito aceitável e corpos que precisam encaixar-se em certos moldes, de preferência com uma barriga tanquinho, e, é claro existe a busca pelo sucesso, seja lá qual for a sua denominação de sucesso.
Existem lugares frequentados por gente “Bonita”.
O Chá Detox da moda e a moda do supérfluo.
Em algum lugar da caminhada esquecemos o quanto é maravilhoso ser único, esquecemos que temos um jeito próprio de fazer as coisas e até mesmo de fazê-las de maneira errada.
Somos frutos de uma evolução que leva tempo.
Do primeiro choro até o túmulo uma quantidade absurda de erros, defeitos, tropeços e escolhas fracassadas é o que realmente deixará de ser esboço para torna-se aquilo que chamamos de vida.
Essa coisa de vida pronta, receitas prontas e passo a passo que leva todos ao mesmo lugar ou as mesmas conquistas é a maior estupidez de nosso século.
Eu gosto de saber que Einstein não era nenhum gênio na escola.
Que Lincoln não era um advogado brilhante.
Que a família Armstrong partiu da Escócia condenada à morte pela forca, mas foi Neil Armstrong que rumando em caravelas com destino a América dos sonhos livres embarcou em outra caravela, e em 20 de julho de 1969 foi o primeiro homem a pisar na lua.
Um sujeito que fora expulso da pensão onde morava, e viu-se forçado a morar no escritório onde trabalhava tinha como companhia apenas os ratos que eram atraídos por restos de comida, porém foi com seu pensamento criativo, observador e obstinado que ele deu vida ao rato mais famoso do mundo, sua criação chamava-se Mickey Mouse e seu criador era Walt Disney.
Os homens que criaram, escreveram os rumos da história, pintaram, descobriram e inventaram eram sábios e visionários a sua maneira, porém quando o assunto era futuro e fracasso eles sabiam o mesmo que eu e você, ou seja, nada.
Pedir uma opinião a terceiros é encontrar uma fila de profetas receosos sobre o que encontrarão na próxima esquina, mas sabedores da receita da vida pronta e dos conselhos sobre como vivê-la.
Existem debates em aberto sobre a sexualidade, sobre a cor da pele de cada um.
Existem verdadeiras guerras travadas entre direita e esquerda, discursões sobre o aborto e religiões.
Existem debates acirrados que acontecem atrás de uma tela de computador, e existe a comunicação olho no olho que morre a cada dia.
Homofobia, Neonazismo, Gordofobia, Amazônia, Estado Islâmico, Guerra da Síria, Refugiados, Muros entre Fronteiras e Testes Massivos de Misseis.
Falta falar sobre individualidade.
Falta debater a liberdade, mas não a liberdade bonita escrita num papel e impraticada na vida real.
Falta falar sobre valores que nos definem com pecados e diferenças, mas não como manada ou gado que precisa viver no mesmo pasto e comer a mesma ração.
Falta debater a beleza de ser o que se é.
Falta debater se tanto debate é abertura de mente ou fechamento de espirito.
Falta perguntar se seu discurso é baseado em liberdade ou na necessidade de que todos aceitem suas verdades e valores.
Falta entender se o debate será de mentes livres ou de cérebros cristalizados.
Falta falar sobre Deus, pois se ele criou todos á sua imagem e semelhança, teria ele usado uma forma?


P. J.








sábado, 29 de julho de 2017

Navegando por Matilde Campilho



O Jóquei, de Matilde Campilho, é uma pérola da língua portuguesa. Suave, elegante, emocional e imensamente (perdoe-me pelo advérbio forçando a frase) profundo, conectando o leitor ao texto como poucos e raros poetas.


A jovem escritora portuguesa lida com suas frases de forma vibrante e sempre surpreendente, com viradas que fazem a leitura transitar entre um suspiro emocional e uma reflexão racionalizada, mas não sem perder a essência do devaneio. É uma experiência prazerosa navegar em suas palavras.

Publicado no Brasil sob o selo da Editora 34, Jóquei é uma leitura dinâmica que desliza fácil pelas suas 152 páginas, como explicado na contracapa, que acontece em saltos criados por poemas em prosa, conversas por telefone, cartas para crianças, explosões de ternura, passeios pelas ruas do Rio de Janeiro, perseguições a carros de bombeiros pelo Brooklyn ou contemplando ondas gigantes de um balcão.

Eu conheci Matilde Campilho na Internet, um dos grandes benefícios dessa ferramenta tecnológica que pode ser usada para o bem ou para o mal. Ainda bem que, desta vez, seu uso foi para o lado bom, mostrando o caminho da beleza construída em versos. A própria Matilde gravou alguns vídeos para o Youtube narrando seus textos.

O sotaque português, com o ritmo sedutor de sua poesia é quase hipnotizador – pelo menos para mim.

Pra quem tem curiosidade e nunca viu nada da autora, recomendo ouvir o "Fevereiro", disponível aqui: 


É um bom material de apresentação de Matilde Campilho a quem nunca viu nada sobre o seu trabalho. A quem já conhece, como eu, é sempre um prazer revisitar essas palavras.

Texto orignalmente publicado no Portal Acesso Cultural.

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